sexta-feira, outubro 30, 2015


Inerte

odete ronchi baltazar
 
Se eu dissesse,
se eu chorasse,
talvez não me doesse tanto assim.
Mas me calo
e me escondo
nestes poucos versos sem fim.
 


Armadilha

odete ronchi baltazar

Tive todas as chances:
todas as saídas estavam abertas,
mas quis experimentar
um louco amor.
 
Quis ver
qual era o lance.
 
E me prendi para sempre
em tua rede.
Foi demais a minha sede.


terça-feira, abril 15, 2014

 

Quando a poesia desperta
 
odete ronchi baltazar
 
  Já que acordei,
traço tua silhueta
em lençóis desarrumados,
 no quarto a media luz.
 
Sonhos em stand by,
prontos a se tornarem verbos,
transitam entre
o real e a fantasia.
 
A chuva, sonolenta,
acorda o pássaro madrugador,
e eu insisto:
quero a paz da manhã,
quero andar por esta via,
sonho com este dia sem dor.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

Dos tons que vestirei

odete ronchi baltazar


Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?
Eu, que sempre vesti-me
de cores,
agora os tons de cinza
permeiam meus dias.
E meus vestidos coloridos
continuarão em malas ocultas
em armários esquecidos.
Visto-me, então, de silêncios,
desdobro-me e continuo
a reza
silenciosa
em tons esmaecidos.

sábado, setembro 01, 2012


 


(Re)part(ir)

odeteronchibaltazar

Tantas coisas já dividimos, veja só:
a dor da solidão, a ansiedade da espera, o choro da saudade...
Repartimos a ausência, a indiferença...
Fizemos os dias mais leves, em intimidades vividos.
Somamos o ar que respiramos às alegrias, às palavras,
e ao verbo que se fez poema um dia.
Acrescentamos sonhos em cada gesto, amamos com delicadeza e ternura.
Tanto tivemos pra contar, tanto a tecer considerações!
Tantos risos enfeitaram as manhãs e as noites que nem sol, nem estrelas se podiam comparar.
Quantos segredos espalhamos pelas tardes!
Brevidades...
Tão pouco desfrutamos deste amar...
Agora, seguimos em diferentes direções sem falar se há choro ou riso, se há paz, se há barulhos ou sinfonia.
Fechamo-nos em chaves, trancas e tramelas.
Não há mais espaço para a poesia.
Vidas, em monótona realidade, sem ter lugar pra fantasia.

odeteronchibaltazar

quarta-feira, agosto 08, 2012


 


Vias do tempo

odete ronchi baltazar

Esse tempo que deixei escorrer entre meus dedos,
não retorna mais,
assim como
meus amores perdidos,
na linha da vida.
Nas mãos,
o destino traçado,
infalivelmente,
se cumprirá.
E eu,
incapaz de deter as rugas e sulcos
que marcam meu corpo,
bebo os dias um a um,
passo a passo.
Pressa?
Para quê?
Meu dia, um dia, chegará...

segunda-feira, março 26, 2012

Menina-poesia

 
Menina-poesia
 
odeteronchibaltazar
 
Quando fui menina
falava com estrelas
e escrevia versos
num céu cheio de fantasia...
Não sabia ainda minha sina,
mas já tinha nas mãos inquietas
a inseparável poesia.

 

quinta-feira, setembro 08, 2011

Livre para voar


Livre para voar

odeteronchibaltazar

Você,
que sempre esperou
pela minha aquiescência,
deve estar perdido agora,
sem saber se vai pro Norte ou pro Sul.
Eu,
aqui deste lado,
estou em minha total essência:
livre, coisa e tal,
fazendo a minha hora,
sendo o que sempre sou:
passarinho canto solto,
asas leves,
tempo pouco para tanto sonhar.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Vida, casa e jardins


odeteronchibaltazar

Li um artigo sobre casas mortas e casas vivas, fazendo alusão ao movimento que essas casas teriam, ou não, de acordo com a vivência do povo que nelas morassem.

Já tinha me dado conta disto e já vinha observando as casas que visitava.

Já entrei em casa onde me pareceu estar em uma vitrine de "casa&jardim", com nadica fora do lugar, como se esperassem por fotógrafos a qualquer momento. Nem um copo na pia, ou um livro largado no sofá, ou uma toalha esquecida em cima da cama, ou um chinelo jogado ao lado da cama... Um gato no sofá? Nem pensar!

Os porta-retratos simetricamente arranjados nas prateleiras tinham sorrisos arrumadinhos e anti-simpáticos. As almofadas fofas eram gordas e intactas no sofá branco asséptico. As cadeiras perfiladas ao lado da mesa esperavam pelos convivas em dia de faustos jantares programados com sorrisos nos devidos lugares. As camas com as colchas sem uma preguinha sequer denunciavam que naquele lugar era proibido se espreguiçar fora de hora ou ler um livro deitado com montanhas de travesseiros nas costas.

As janelas e as cortinas fechadas não deixavam o sol (que pretensão!) entrar. O vento era amaldiçoado. E tudo ficava num silêncio que doía nos ouvidos.

Comecei a gostar das casas onde, na pia, sempre tinha umas xícaras com restos de café ou copos com suco, prontas para serem lavadas, e a chaleira sempre, no fogão, à espera de água para mais um café da hora.

Passei a achar poético, mais do que desleixo, os brinquedos deixados no tapete, ou a bola largada no jardim, ou a bóia flutuando na piscina. E os tênis largados na grama com as meias que o labrador roeu? Quer mais sinal de que existe vida nessa casa?

Para mim, um livro largado no sofá ao lado de uma xícara de café e dos óculos de leitura passou a ser mais uma cena de pintura (still life) e não um motivo para me descabelar para correr e pôr em ordem.

Mas tempo já houve em que eu ficava exausta tentando apagar qualquer vestígio de vivência dentro de casa. E como na minha casa a vida pululava, eu vivia em eterna briga com a vida, tentando amortizar e amordaçar, querendo deixar tudo inerte, silencioso, descolorido.

Só que tenho algo dentro de mim mesma que deixo escapar e que não consigo colocar em ordem por mais que eu queira. E isso se reflete no exterior, nas minhas coisas e no que me rodeia. Tenho as janelas sempre abertas com o vento a brincar nas cortinas, os gatos deitados nos sofás, as roupas no varal, a chaleira no fogo, o ursinho da netinha no tapete e os chinelos largados no meio da casa porque gosto de andar descalça e os cabelos ao vento. Minha casa nunca será fotografada pela produção da "casa&jardim" pois sempre terá risos e ventos espalhados pelos cantos todos, numa desordem amorosa e aconchegante. Quem olhar mais atentamente, vai perceber que por aqui, a vida anda à solta pelos quartos, salas e pelo jardim.

odeteronchibaltazar
 

quinta-feira, julho 28, 2011

"Ah se certas coisas pudessem voltar..."

"Ah se certas coisas pudessem voltar..."
(Cecília Meireles)

odeteronchibaltazar


Quando eu era pequena, nas férias, passávamos a maior parte do tempo com os primos. Não se viajava como nos dias de hoje. Estávamos sempre juntos com os parentes e amigos da rua.

        Na época de inverno, tempo das laranjas, íamos nas nonas para chupá-las diretamente dos pés e ainda trazíamos bolsas cheias delas para casa.

        Na época do verão, íamos buscar melado e acúcar grosso nos Macarinis. Era muito longe e íamos a pé com garrafas para colocar o melado.

        Tinha a época de colher vassouras no mato, que não lembro se era verão ou inverno. A gente ia em turma de primos e amigos: Rosa, Natalina, Aládio, Pico, Tela, Iva, Miri, Toninho, Tite, Nené, Bertino, Lurdes, Zoraide, Santina, eu...

        Lembro que era longe e que tínhamos que passar pelo Buiú, o rio que cortava as terras do seu João Bonfante, já poluído naquela época pelos detritos do carvão. As águas eram escuras, cor de ferrugem, quase pretas.

        A gente ia fazendo muita folia, aprontando todo tipo de brincadeiras e me recordo de uma em especial. Pegávamos as folhas de coqueiro e nos balançávamos em volta dele, tipo Tarzan. A adrenalina da brincadeira ficava por conta do Buiú (o rio, lembram?), pois o coqueiro ficava no barranco do rio e no impulso que dávamos, parte do "voo" era por cima do Buiú! Se a gente caísse, iria se afogar, com toda certeza, pois as águas eram profundas e com correnteza. Mas quem disse que criança tem juízo?

        Em acordo mútuo, ninguém contava para os pais. É claro que se eles soubessem proibiriam todos de andar por aquelas bandas.

        Quando voltávamos, trazíamos os braços carregados de um arbusto que servia para fazer vassouras para varrer os terreiros e quintais que sempre eram muito grandes naqueles tempos. E ainda trazíamos, tucum , araçás, mexericos (uma frutinha bem pequenina e roxa), laranjas, maranto (outra frutinha roxa que usávamos para colorir as unhas).

        Vínhamos carregados e cansados, esperando tomar o café da tarde com muito cavaquinho, pão de casa, queijo, salame e, se tivéssemos sorte, umas fatias de polenta fria.

        Sentávamos na mesa assim mesmo, sem tomar banho, quando muito com as mãos lavadas, e nos nutríamos daquela energia que somente em família podemos ter.

        Minha infância foi tão intensa que vivi por mil e mais mil viveria se me fosse dado escolher.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...