quarta-feira, agosto 08, 2012


 


Vias do tempo

odete ronchi baltazar

Esse tempo que deixei escorrer entre meus dedos,
não retorna mais,
assim como
meus amores perdidos,
na linha da vida.
Nas mãos,
o destino traçado,
infalivelmente,
se cumprirá.
E eu,
incapaz de deter as rugas e sulcos
que marcam meu corpo,
bebo os dias um a um,
passo a passo.
Pressa?
Para quê?
Meu dia, um dia, chegará...

segunda-feira, março 26, 2012

Menina-poesia

 
Menina-poesia
 
odeteronchibaltazar
 
Quando fui menina
falava com estrelas
e escrevia versos
num céu cheio de fantasia...
Não sabia ainda minha sina,
mas já tinha nas mãos inquietas
a inseparável poesia.

 

quinta-feira, setembro 08, 2011

Livre para voar


Livre para voar

odeteronchibaltazar

Você,
que sempre esperou
pela minha aquiescência,
deve estar perdido agora,
sem saber se vai pro Norte ou pro Sul.
Eu,
aqui deste lado,
estou em minha total essência:
livre, coisa e tal,
fazendo a minha hora,
sendo o que sempre sou:
passarinho canto solto,
asas leves,
tempo pouco para tanto sonhar.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Vida, casa e jardins


odeteronchibaltazar

Li um artigo sobre casas mortas e casas vivas, fazendo alusão ao movimento que essas casas teriam, ou não, de acordo com a vivência do povo que nelas morassem.

Já tinha me dado conta disto e já vinha observando as casas que visitava.

Já entrei em casa onde me pareceu estar em uma vitrine de "casa&jardim", com nadica fora do lugar, como se esperassem por fotógrafos a qualquer momento. Nem um copo na pia, ou um livro largado no sofá, ou uma toalha esquecida em cima da cama, ou um chinelo jogado ao lado da cama... Um gato no sofá? Nem pensar!

Os porta-retratos simetricamente arranjados nas prateleiras tinham sorrisos arrumadinhos e anti-simpáticos. As almofadas fofas eram gordas e intactas no sofá branco asséptico. As cadeiras perfiladas ao lado da mesa esperavam pelos convivas em dia de faustos jantares programados com sorrisos nos devidos lugares. As camas com as colchas sem uma preguinha sequer denunciavam que naquele lugar era proibido se espreguiçar fora de hora ou ler um livro deitado com montanhas de travesseiros nas costas.

As janelas e as cortinas fechadas não deixavam o sol (que pretensão!) entrar. O vento era amaldiçoado. E tudo ficava num silêncio que doía nos ouvidos.

Comecei a gostar das casas onde, na pia, sempre tinha umas xícaras com restos de café ou copos com suco, prontas para serem lavadas, e a chaleira sempre, no fogão, à espera de água para mais um café da hora.

Passei a achar poético, mais do que desleixo, os brinquedos deixados no tapete, ou a bola largada no jardim, ou a bóia flutuando na piscina. E os tênis largados na grama com as meias que o labrador roeu? Quer mais sinal de que existe vida nessa casa?

Para mim, um livro largado no sofá ao lado de uma xícara de café e dos óculos de leitura passou a ser mais uma cena de pintura (still life) e não um motivo para me descabelar para correr e pôr em ordem.

Mas tempo já houve em que eu ficava exausta tentando apagar qualquer vestígio de vivência dentro de casa. E como na minha casa a vida pululava, eu vivia em eterna briga com a vida, tentando amortizar e amordaçar, querendo deixar tudo inerte, silencioso, descolorido.

Só que tenho algo dentro de mim mesma que deixo escapar e que não consigo colocar em ordem por mais que eu queira. E isso se reflete no exterior, nas minhas coisas e no que me rodeia. Tenho as janelas sempre abertas com o vento a brincar nas cortinas, os gatos deitados nos sofás, as roupas no varal, a chaleira no fogo, o ursinho da netinha no tapete e os chinelos largados no meio da casa porque gosto de andar descalça e os cabelos ao vento. Minha casa nunca será fotografada pela produção da "casa&jardim" pois sempre terá risos e ventos espalhados pelos cantos todos, numa desordem amorosa e aconchegante. Quem olhar mais atentamente, vai perceber que por aqui, a vida anda à solta pelos quartos, salas e pelo jardim.

odeteronchibaltazar
 

quinta-feira, julho 28, 2011

"Ah se certas coisas pudessem voltar..."

"Ah se certas coisas pudessem voltar..."
(Cecília Meireles)

odeteronchibaltazar


Quando eu era pequena, nas férias, passávamos a maior parte do tempo com os primos. Não se viajava como nos dias de hoje. Estávamos sempre juntos com os parentes e amigos da rua.

        Na época de inverno, tempo das laranjas, íamos nas nonas para chupá-las diretamente dos pés e ainda trazíamos bolsas cheias delas para casa.

        Na época do verão, íamos buscar melado e acúcar grosso nos Macarinis. Era muito longe e íamos a pé com garrafas para colocar o melado.

        Tinha a época de colher vassouras no mato, que não lembro se era verão ou inverno. A gente ia em turma de primos e amigos: Rosa, Natalina, Aládio, Pico, Tela, Iva, Miri, Toninho, Tite, Nené, Bertino, Lurdes, Zoraide, Santina, eu...

        Lembro que era longe e que tínhamos que passar pelo Buiú, o rio que cortava as terras do seu João Bonfante, já poluído naquela época pelos detritos do carvão. As águas eram escuras, cor de ferrugem, quase pretas.

        A gente ia fazendo muita folia, aprontando todo tipo de brincadeiras e me recordo de uma em especial. Pegávamos as folhas de coqueiro e nos balançávamos em volta dele, tipo Tarzan. A adrenalina da brincadeira ficava por conta do Buiú (o rio, lembram?), pois o coqueiro ficava no barranco do rio e no impulso que dávamos, parte do "voo" era por cima do Buiú! Se a gente caísse, iria se afogar, com toda certeza, pois as águas eram profundas e com correnteza. Mas quem disse que criança tem juízo?

        Em acordo mútuo, ninguém contava para os pais. É claro que se eles soubessem proibiriam todos de andar por aquelas bandas.

        Quando voltávamos, trazíamos os braços carregados de um arbusto que servia para fazer vassouras para varrer os terreiros e quintais que sempre eram muito grandes naqueles tempos. E ainda trazíamos, tucum , araçás, mexericos (uma frutinha bem pequenina e roxa), laranjas, maranto (outra frutinha roxa que usávamos para colorir as unhas).

        Vínhamos carregados e cansados, esperando tomar o café da tarde com muito cavaquinho, pão de casa, queijo, salame e, se tivéssemos sorte, umas fatias de polenta fria.

        Sentávamos na mesa assim mesmo, sem tomar banho, quando muito com as mãos lavadas, e nos nutríamos daquela energia que somente em família podemos ter.

        Minha infância foi tão intensa que vivi por mil e mais mil viveria se me fosse dado escolher.

quinta-feira, julho 21, 2011

Espanto



Espanto

odete ronchi baltazar

O dia é feito de pequenos assombros
curtas palavras,
longas esperas.
E no andar das horas
toco as asas do tempo.
Minhas mãos vagarosas
desenham sonhos lentos,
nas brancas fronhas,
enquanto não chega a aurora.
Liberto as águas vertentes
sem saber das sendas
que se abrem
no meu medo sem fim
Tu não chegaste.
Por que a demora?

odeteronchibaltazar

sábado, junho 11, 2011

Um dia a mais na tua ausência

 
 
Um dia a mais na tua ausência 

odeteronchibaltazar
 
Enquanto tenho esse dia,
espalho meus versos
pelas horas,
até que resolvas te aproximar
e me tirar
da concha
em que me escondi.
Enquanto o dia durar
espero
entre o sonho
e os poemas
que tão só escrevi.
Enquanto o dia
estiver aqui
eu os retenho nas mãos
inconformadas
e os disperso
nas sombras da minha solidão.
 
odeteronchibaltazar

(Re)encontro

 
(Re)encontro
 
odete ronchi baltazar
 
Tantos anos!
Tantas mudanças!
Já eras outro.
Eu havia mudado
nas solitárias andanças.
As palavras (doces palavras!)
renasceram neste dia.
As cartas amarelecidas pela tinta do tempo,
voltaram em ternuras nunca esquecidas.
Já não doía mais a distância,
e o coração bateu no mesmo compasso.
Os caminhos foram tantos!
Em todos eu procurei o teu passo
(aquele!)
que me fazia levitar e seguir em asas de paixão.
Tua volta revirou meus dias,
meus sonhos, minhas noites.
Passei a querer viver com sofreguidão,
voltei a ter desejos de espaço,
voando em asas prometidas
e alcançar, de novo, a amplidão.
 
odeteronchibaltazar

Bonjour, Tristesse

 
Bonjour, Tristesse
 
odeteronchibaltazar
 
Foi em vão que busquei
o que foi,
o que me alimentava a alma,
o que era bom.
Não existia mais o frisson,
a taquicardia,
a espera,
o papel de bombom.
Tu, em mim, não existias mais.
E foi surpresa
não sentir
a alma dando pinotes
à tua presença.
Não tinha mais a crença,
nem a superstição
que contava os minutos (quiçá, os segundos!)
até chegares
e transformar meu dia
em girassóis,
em amarelos-luz.
Foi-se assim
sem mais nem menos,
sem pedir licença.
E eu,
agora,
mesmo sem saber a direção,
vou em busca
de novo amor que,
ainda tão longe, 
me seduz
em solidão.
 
odeteronchibaltazar

quarta-feira, abril 13, 2011

Beijos


Beijos


S. Holtz

Beijos de amor,
beijos sem pudor,
beijos com o toque da flor,
desejo te beijar... seja como for,
beijos esperados que aliviam a dor,
para os dias quentes, beijos com frescor,
quando chegar o inverno, beijos com calor,
para adoçar a boca, beijos com sabor,
suaves beijos tiram todo o amargor,
para a paixão, beijos com furor,
meus beijos ao teu dispor
e eu, perdido de amor.

S. Holtz
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