domingo, novembro 29, 2009

Bocejo




















Bocejo

odete ronchi baltazar

É pela manhã
que sinto a tua falta...
É quando acordo e
espalho a preguiça entre os lençóis,
quando me viro e não te vejo
que sinto a falta dos meus sóis
perdidos em teu olhar.

Falta-me o côncavo do teu corpo
que eu preencho com
ternura, pernas, braços e pés.
Falta-me o teu resmungar rouco,
o teu cabelo revirado,
falta o teu bocejo (nada) poético,
falta a tua roupa largada de qualquer jeito,
falta a tua displicência na hora de amar.

Que posso fazer?
Levanto-me,
visto-me com a tua ausência,
calço chinelos
e espanto o sonho que não quer acordar.

odeteronchibaltazar

quarta-feira, novembro 11, 2009

(Des)inspiração
















(Des)inspiração

odete ronchi baltazar

Essa espera
que faz meus dedos tremerem
na busca de um nome
para essa ausência,
dá o tom
dos meus versos.
Nunca estive tão certa:
tua falta
faz-me pequena.
Tão mínima que
desapareço sob os raios de sol.
Transparente tecido a cobrir o sereno
na noite desestrelada
Apagada luz
no escuro.
Sem inspiração.

sábado, outubro 03, 2009

Já é outubro




















Já é outubro

odeteronchibaltazar

Já é outubro
e nem vi os dias passarem
à minha janela.
Já é outubro
e me perdi dos dias
em que os teus olhos cuidaram
dos meus
e as tuas mãos brincaram
em meus sonhos
como crianças
em seus brinquedos novos.
Já é outubro
e perdi o dia
em que os meus sonhos
foram como algodão doce
em minha boca.
Já é outubro
e esqueci o dia
em que os meus risos
foram canções
pautadas em ritmo de céu.
Já é outubro
e me perdi em um tempo
que um dia foi meu...

quinta-feira, outubro 01, 2009

Novo recadinho by odete

















Recadinhos by odete

Adianta vestir a fantasia?
Andar por aí em buscas inúteis?
Saltar de paraquedas,
cheirar a maresia?
Adianta chamar?
E implorar, adianta?
Ajoelhar?
Pagar fiança?
Quem sabe soletrar teu nome
e espalhar as cinzas deste amor
aos quatro ventos?
Quem sabe?
Mataria minha fome
e como Fênix renasceria
dando ao mundo mais cor.

quinta-feira, setembro 17, 2009

O que me faz feliz
















O que me faz feliz

odeteronchibaltazar

O que me faz feliz
é ter chuva cantando na calha,
é saltitar na rua,
é olhar para a frente,
é ver que a noite não falha.
O que me faz feliz
são teus olhos,
é a prata da lua,
é o instante,
é a reza de joelhos,
é a cantoria das aves,
é o fim de tarde na minha rua.
O que me deixa feliz
é o chocolate na boca,
é o beijo esperado,
é o abraço apertado,
é escapar da dor por um triz.
O que me deixa feliz
é a flor de laranjeira
com perfume de anjo,
é o teu dedo
na ponta do meu nariz.
O que me deixa feliz
é não me arrepender de viver,
é caminhar ao teu lado,
é gostar de tudo que eu fiz.

odeteronchibaltazar

segunda-feira, julho 20, 2009

Rasante

















Rasante

odeteronchibaltazar

Falasse eu do voo transparente
das borboletas nas lantanas
e eu teria o etéreo em minhas mãos.
Mas não falo de asas.
Falo do chão,
falo dessas pedras
onde finco meus pés inquietos
e os planto
para que não tentem
ganhar a amplidão.
Falo dos braços amarrados,
tensos,
angustiados e doídos que,
para mim própria
voltarão.

odeteronchibaltazar

quinta-feira, junho 25, 2009

Súplica


















Súplica

odete ronchi baltazar

Deixa que te diga
da solidão que trago em meu peito,
do choro que treme à beira dos olhos,
do sorriso pintado em aquarelas,
dos adeuses que lamentei,
do meu verso já feito
e que não mostrei.
Deixa que te mostre
meu peito doído
e minhas mãos cansadas,
meus sonhos quebrados
e a esperança já morta.
Deixa que te mostre
minhas flores já secas,
os poemas inacabados
e a minha longa estrada torta.
Deixa que eu me mostre
assim frágil, chorosa.
Depois, nunca mais baterei à tua porta.


Imagem original: Ivan Slavinsky

segunda-feira, junho 22, 2009

Era uma vez


















Era uma vez

odete ronchi baltazar

Era uma vez um amor...
(tão intenso!).
Beirava a loucura,
e sem mais procura
espalhava-se neste mundo imenso.
Foi segredo
antes que as andorinhas,
voando baixo,
espalhassem em seus gorjeios
as notas dessa paixão.
Foi nó
na garganta
esperando as pontas
para desatar no chão.
Foi lágrima,
foi riso,
foi rio,
foi mar.
Desse amor
(tão intenso)
restou
a lembrança,
um pouco
de choro,
(de riso)
sufoco
e ar.
Só memórias...
sem remédio.
Não tem como voltar.

segunda-feira, junho 15, 2009

Rainha do lar?



















Rainha do lar?

odete ronchi baltazar

Segundo turno da segunda começando e eu ainda nos serviços gerais, que não acabam nunca.
Serviço de dona-de-casa é um serviço ingrato. Se a gente faz ninguém nota. Se deixa de fazer é um deus-nos-acuda! Todo mundo cai de pau em cima por causa da reviria.
Já pensaram bem quanta coisa temos que fazer para deixar uma casa em ordem?
Dona-de-casa deveria se chamar "administradora do lar", oras, pois é isso mesmo que ela é.
Vou enumerar algumas (eu disse "algumas"!) das tarefas que temos que realizar: lavar roupas, estender, recolher, passar, guardar, colocar nos cabides... varrer, passar pano, tirar o pó, cozinhar, ajeitar a cozinha depois do almoço, ou jantar... E se tiver crianças, ai, ai! A coisa fica mais complicada.
Sei. Vão me dizer que as brastemps lavam. Mas quem é que põe pra lavar, coloca o sabão, o amaciante, o clareador, a Qboa naquela manchinha? Quem engoma as toalhinhas de bandeja ou de pão? Pois é...
E o supermercado? Tem coisa mais estressante?
Faz a lista, passa nas prateleiras, põe no carrinho, passa no caixa, põe no carrinho, põe no carro, tira do carro, põe nos armários... Ufa! cansei!
E ainda tem o almoço pra fazer?
Ah, não!
Vou fazer um sanduíche que ninguém é de ferro!
E ainda tem muita coisa pra fazer... Nem pensem que terminaram as tarefas da dona-de-casa aqui.
Acho que essa história de reinar no meu lar é história mesmo. Eu sou mesmo é gata borralheira... Com avental e tudo o mais. Nem à noite viro Cinderela!
Entre louças, roupas e vassouras, desfaço os nós e os laços das fantasias diárias e entro de cabeça na realidade que não assusta, mas me deixa atenta e me diz que não é pra desistir de sonhar.
Sou teimosa, tenho sonhos nas pontas dos dedos e insisto em dizê-los aos quatro cantos do mundo.
Vamos em frente que o dia apenas começou!

quinta-feira, junho 11, 2009

Sina de poeta




















Imagem de Elena Ray


Sina de poeta

odeteronchibaltazar

Neste criar/recriar,
minhas palavras vêm de mim,
mas não são minhas.
Quando as quero,
já não estão.
Alçaram vôo
e estão por sua própria conta
em bocas e olhos alheios,
que espiam seus significados
e desvendam meus mistérios.
Quero um nome,
mas destoo do canto geral.
Nesta sina de poeta,
solitária lida,
tenho tudo,
mas estou tão somente só.
Ó palavras, vivas palavras!
Ainda estarão aqui,
mesmo depois de eu virar pó...
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