terça-feira, janeiro 20, 2009

Altos e baixos - o efeito gangorra












Altos e baixos - o efeito gangorra

odeteronchibaltazar

Li o livro da Kay Redfield Jamison "Uma mente inquieta" e em vários relatos me identifiquei com a autora que tem transtorno bipolar, antigamente chamada de doença maníaco-depressiva.
É um transtorno onde o indivíduo se vê em fases de extraordinária produção intelectual e física, opondo-se a outra fase de completa ausência de interesses pelo que quer que seja. Fases de euforia e fases de depressão braba.
Fases como a lua: "fases de andar escondida, fases de vir para a rua", como diz a Cecilia Meireles nos seus versos.
Vou falar por mim que me trato (há bastante tempo) deste mal:
Desde que me conheço por gente, sempre tive esses altos e baixos no meu comportamento. Que eu me lembre, desde a minha infância, na época do primário, eu já apresentava surtos maníacos. Lembro de uma vez que rasguei livros e cadernos só porque não conseguia traçar uma linha com a régua e caneta sem borrar. Conseqüência: tive que remendar o livro e passar todos os "pontos" a limpo.
Pela vida afora, fui apresentando mais ou menos episódios que sempre pareciam fazer parte da minha personalidade "estranha", mas nunca tive um diagnóstico a não ser há alguns anos (há 16 anos).
Na fase depressiva o raciocínio e a concentração ficam comprometidos. Não consigo ler, escrever ou ver filmes.
Tenho fixação pela morte: medo de perder os que me rodeiam e constantemente querendo uma explicação para este tema. Não me animo a fazer nada, o sono fica perturbado com freqüentes apnéias.
Não saio porque não quero ver gente. Tenho medo de qualquer aproximação, mesmo com os mais chegados da família.
Não atendo telefone ou campainha.
Não saio para fazer compras ou cuidar de mim.
Fico horas parada com a mente perdida, sem nenhum pensamento.
Nestas horas, o choro fica fácil, a raiva fica descontrolada e, não raro, acabo quebrando objetos que estão ao alcance das mãos.
Meu estômago vive com um grande buraco e como grandes quantidades de comida até vomitar... e me arrependo depois. Não foi à toa que fiquei obesa, culminando numa gastroplastia.
Procuro comida nos armários e geladeira e acabo comendo porcarias que me fazem mal.
Na fase de mania faço tudo exageradamente e com uma alegria exacerbada, tais como: falar, comprar, escrever, limpar, amar. Nesta fase acentua-se a minha mania de limpeza e varro várias vezes o mesmo lugar.
É nesta fase que recomeço meus exercícios físicos, cuido da dieta, pinto ou corto o cabelo, faço depilação, arrumo as unhas em cores, atendo telefone, saio com as amigas.
Se vou fazer compras acabo comprando coisas que nem vou usar como por exemplo roupas, sapatos, bolsas, óculos. E me arrependo depois... Juro que não faço mais, mas acabo fazendo igual no próximo surto compulsivo.
Tudo isso que (falei) escrevi tem conseguido aparecer em doses controladas, se é que se pode falar desta maneira, já que faço tratamento psicoterápico e farmacológico. Ou seja: vou ao psiquiatra regularmente e tomo medicação apropriada.
Aceitei que tenho o transtorno bipolar e sobrevivi ao preconceito de ser uma interna de clínicas psiquiátricas e de ter feito o tratamento por eletrochoques (ECT). Já falo normalmente (?) da minha "doença", embora nem sempre meus ouvintes achem a coisa tão natural quanto o é para mim.
Os que estão mais próximos de mim, me entendem e me aceitam com minhas manias e depressões.
Não posso ficar sem meus comprimidos e/ou terapia para meu próprio bem e dos que me rodeiam, mas consigo ter uma vida praticamente normal, respeitando minhas limitações. Quem me vê nem diz que eu sou assim. Disfarço bem.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Minha máquina de lavar roupas aluada





















Minha máquina de lavar roupas aluada

odeteronchibaltazar

Minha máquina de lavar roupas, que não é nenhuma Brastemp, mas é também famosa e de boa estirpe, de uns tempos pra cá vem apresentando um ruído estridente na lavação. É um trec-trec-trec alto e ruidoso que me incomoda o tempo todo em que ela funciona. Sabem quando parece que tem alguma engrenagem solta? Pois é...

Faz toda a programação bonitinha, tudo corretinho. Mas a barulheira é tanta, que aqui está parecendo casa de louco. Para não enlouquecer de vez, chamei o técnico, meu conhecido de outras máquinas.

Chegou, mexeu na máquina, botou pra funcionar e, enquanto eu rodeava o técnico pelas vizinhanças da área de serviço, percebi um certo silêncio. Não é que a minha ruidosa e escandalosa máquina estava rodando bela e faceira com a educação de uma lady? Silenciosa, sem trec-trec algum. Como é que é?

- O que era que fazia aquele barulho infernal? Perguntei pro rapaz.

- O que era o quê?

- O defeito, insisti.

- Não fiz nada. Não mexi em nada. Só botei pra funcionar.

- Como assim? Essa máquina estava fazendo tanto barulho que nos deixava malucos e agora está muda que nem uma porta. Nem parece ligada.

O técnico me olhava de soslaio.

- Acho que é porque está girando sem água, disse eu, achando que tinha descoberto finalmente algo importante.

Então colocamos água e sabão e até roupa, e ligamos a Dona Máquina Aluada.

Suspense! Tensão no pequeno recinto.

Tchan tchan tchan tchan!

Silêncio absoluto! Cadê o barulho? Cadê o trec-trec-trec que me enlouquecia?

Fiquei com cara de tacho.

O rapaz devia me achar uma daquelas donas de casa desesperadas por companhia, que chama o técnico de qualquer coisa, só pra ter com quem conversar.

Fiquei sem graça, sem jeito, sem assunto.

Que remédio! Paguei a visita de praxe.

Querem saber? Dois dias depois a porcaria da máquina voltou a fazer o maior estardalhaço.

Está lá, rodando sozinha na área de serviço, feito uma louca com os trec-trecs dela, aquela doida varrida! Aluada!

E agora? Chamo o técnico?

E se a máquina resolve ficar boazinha na frente do moço de novo?



(22 de setembro/2007)

terça-feira, janeiro 13, 2009

Faro















Faro

Teu cheiro,
coisa volátil,
incêndio,
trovão.
Onda que me excita,
incita,
fustiga.
Mescla de sândalo
e jasmim,
teu cheiro nutre
e me pinica.
Teu cheiro
cabe inteiro
nos meus desvãos.

odeteronchibaltazar

domingo, dezembro 28, 2008

Aqui jaz um blog
















Coisa triste é visitar blog abandonado. É como se entrássemos em casas desertas, cobertas por lençóis e cheias de poeira, como a gente vê nos filmes americanos. A gente passeia pelos cômodos e não encontra sinal de vida. E pensamos em como deveria ter havido alegria pulsante todos os dias naquele lugar que amanhecia ávido por novas postagens e em como tinha movimento naqueles becos em que se entra, agora, silenciosos e tristes.
Embora não goste de passear entre os escritos abandonados, como se de repente algum acordasse do abandono imposto e pudesse me assustar, vou lendo os escombros deixados pelo poeta ou contador de histórias.
Fico a me perguntar o que faz o poeta abandonar seu lugar de registro do dia a dia. Cansaço? Tédio? Preguiça? Falta de tempo? Depressão? Falta de inspiração? Morte?
E as palavras, mudas o tempo todo, não explicam nada. Não me contam o segredo. E fico a ler tudo com avidez para ver se encontro uma pista que revele o porquê do abandono daquele espaço.
Há aqueles que, mesmo abandonados, mantêm um certo glamour. Têm classe. E mesmo deixados de lado, ainda têm atrativos, os mesmos de quando eram atualizados o tempo todo. Têm categoria.
Há, porém, aqueles em que o abandono aparece em toda parte. Ficaram obsoletos no layout, as imagens foram substituídas por um "x" e as palavras já não dizem nada. Os links estão quebrados e não levam mais a lugar algum.
É a decadência visível do espaço. Tem-se que acender a luz em cada cômodo e, mesmo assim, há aquelas que estão queimadas ou que faltam. A poeira intoxica e coça o nariz. É como se a gente descobrisse um lugar com corpos destroçados e em decomposição.
Triste, muito triste visitar um blog assim. É como se passeássemos olhando lápides de "Aqui jaz". Sensação de solidão, de adeus.
Passo depressa e, mais que depressa, clico em outros links à procura de vida.
Deixemos os mortos em paz.

domingo, novembro 09, 2008

Caixa dos guardados


















Caixa dos guardados

odeteronchibaltazar

As minhas mãos vazias escrevem o destino deste amor que já nasceu com tempo para acabar.
E entre as páginas em branco, vou deixando impressas, as lágrimas que enxuguei nas fronhas das noites insones.
Nunca soubestes das minhas agonias.
Mas hoje escancaro as janelas e deixo o sol entrar outra vez para iluminar os meus escondidos...
Fiat lux!
Há tanto para iluminar...
Há tanto para repensar e separar nas caixas que deixei sem um olhar!
Aqui está, num embrulho de papel dourado, o beijo que sempre quis dar, mas que nunca foi dado.
Nesta caixa de papelão tenho os mil anseios que guardei na espera que viesses.
Neste outro embrulho de papel pardo, tenho o choro que ninguém nunca viu. Nem tu... Ficou sempre aqui guardado.
Há também, umas gavetas trancadas. Joguei fora as chaves.
Estas, nunca mais abrirei.
Lá estão as agonias, guardadas lado a lado com a tua ausência.
Tem também a indiferença, o olhar enviezado e o gesto brusco, a palavra dura, o beiço virado.
Não quero isso mais, não!
Mas tenho um tesouro aqui nesta caixinha de música com bailarina na pontinha do pé.
É o teu riso cristalino, o senso de humor refinado, o carinho recebido...
Também guardo um pouco da tua rabugice que me deixava em polvorosa nas manhãs de azuis esperas.
Entre as páginas em branco, (aquelas escritas com minha solidão), tenho uns versos de Cecília que me aquecem o coração...
Releio e olho mais uma vez. Fecho tudo e suspiro.
As caixas dos guardados vão ficar esquecidas por mais um tempo.
Enquanto isso... outros amores virão.

odeteronchibaltazar

quarta-feira, outubro 15, 2008

Tempo de saudades

Tempo de saudades

odeteronchibaltazar

Teço as manhãs e as tardes
com a saudade que nasce
dos meus dias.
Saudades que brilham em luares,
saudades que pintam as cores do pôr-do-sol,
saudades que cintilam em meu olhar.
E por não estares em meus dias,
sigo em brumas
e melancolias
que dormem e acordam nas minhas
pobres fantasias.

odeteronchibaltazar

terça-feira, outubro 07, 2008

Recadinhos by odete

















Recadinhos by odete

Eras tu que me vestia
da cabeça aos pés.
Eras tu que me enfeitava
com as palavras
e com as tuas melodias.
E mesmo com tuas rabujices,
eu consegui ser feliz
naqueles dias.
Despida, agora,
sou ave sem ninho
mar sem praia,
pauta sem sinfonia.
E o que me resta nesta hora?
Sem ter em quem ter fé,
só o que me sobra é ir embora.

odeteronchibaltazar

segunda-feira, setembro 29, 2008

(Re)part(ir)




















(Re)part(ir)

odeteronchibaltazar

Tantas coisas já dividimos, veja só:
a dor da solidão, a ansiedade da espera, o choro da saudade...
Repartimos a ausência, a indiferença...
Fizemos os dias mais leves, em intimidades vividos.
Somamos o ar que respiramos às alegrias, às palavras,
e ao verbo que se fez poema um dia.
Acrescentamos sonhos em cada gesto, amamos com delicadeza e ternura.
Tanto tivemos pra contar, tanto a tecer considerações!
Tantos risos enfeitaram as manhãs e as noites que nem sol, nem estrelas se podiam comparar.
Quantos segredos espalhamos pelas tardes!
Brevidades...
Tão pouco desfrutamos deste amar...
Agora, seguimos em diferentes direções sem falar se há choro ou riso, se há paz, se há barulhos ou sinfonia.
Fechamo-nos em chaves, trancas e tramelas.
Não há mais espaço para a poesia.
Vidas, em monótona realidade, sem ter lugar pra fantasia.

odeteronchibaltazar

sábado, agosto 16, 2008

Recadinhos by odete


















Escondo meus beijos
em poemas inventados
na tarde solitária.
Beijoss que nunca
serão dados,
beijos da minha fome
e por mim mesma alimentados.
Traço teu nome
em laços e fitas
e dou um nó.
Guardo-o em minhas mãos,
pego um tantinho de fé
ajoelho e peço em oração
para que eu não seja tão só.
Vê bem, presta atenção:
Esta é a última fantasia
e a decisão não é arbitrária.
Não é capricho meu,
nem minha invenção.
É a mais pura verdade:
eu quero os beijos
(os teus),
aqueles que nunca me foram dados.

sexta-feira, agosto 01, 2008

Minha ternura em tuas mãos

















Minha ternura em tuas mãos

odeteronchibaltazar

Entre o dito e o não-dito
fica a mágoa,
instalada
no peito
que dói.
Entre as palavras que ferem
deixo estar
minha poesia
que embalava nossos sonhos
e umas tantas fantasias.
Entre os versos tontos
fica minha ternura,
ainda pura,
que procura por teu ninar.
Entre minhas lágrimas
deixo os meus sonhos que,
tolos,
insistem em te buscar.

odeteronchibaltazar
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