quarta-feira, dezembro 07, 2005

Natal













Vesperal

odeteronchibaltazar

Se Papai Noel me trouxesse
um cartão,
uma linha,
um risco que fosse,
vindo diretamente
de tuas mãos,
ah, seria,
então,
Natal!

odeteronchibaltazar

quinta-feira, dezembro 01, 2005

de saudades













de saudades

odeteronchibaltazar

Pairam tuas palavras
em meus dias
e em minhas noites
que em insônias
deixo escorrer.
Pairam os teus olhos
em meus versos
como faróis
em mares de temporal.
E eu
em agonias,
busco as tuas mãos
que me acenam
em promessas
para livrar-me de todo mal.

dez/2005

****

de saudades

odeteronchibaltazar

E hoje teve a saudade,
triste verdade,
dos versos teus,
dispersos carinhos,
neste meu solitário céu.
E hoje teve a lágrima,
teimosa prova
da falta que me faz
um pouquinho
do riso teu.
E hoje teve a música,
senha nua,
anunciando marota,
teus esperados passos.
Hoje, que triste,
só não teve teu braço,
doce refúgio,
que me esconderia o cansaço,
me fazendo só tua.

*****

de saudades

odeteronchibaltazar

A saudade teceu um manto
sobre minhas palavras
que estão,
agora,
frias e caladas.

Já não adianta
as teias e seus cristais luzirem nas manhãs
pois meus olhos adormecerão
como sensitivas ao toque.
E as vozes dos riachos
entoarão,
à toa,
as cantigas.
E as folhas mortas
esquecerão de dar cores ao outono
ou de abafar o som dos meus passos fugidios.
Já não adianta o amanhecer com suas promessas
pois que a saudade se instalou
definitivamente em meus dias.

*****

de saudades, sempre...

odeteronchibaltazar

Hoje,
me perfumei com saudades,
olhando teu retrato amassado,
lembrança há tempos escorrida,
neste meu mundo quebrado.
Nas sobras do choro,
costuro a vida,
e me escondo da tua ausência doída.
Nas dobras do olho,
já não consigo
desfazer o nó que,
há muito tempo,
eu fiz,
nestas minhas duras esquinas.

*****

segunda-feira, novembro 21, 2005

Minha amiga Silsaboia












Sonho

Silsaboia

Não tenho medo do futuro
nem da lágrima no escuro
nem das lutas
dores e temores
que rodeiam o meu olhar...
Tenho medo só da morte
de nunca mais sonhar!

Silsaboia

****

Rasteira

Silsaboia

Ando pensativa esses dias...
pelos cantos, distraída
sem dor e sem alegria
lambendo cada ferida.

Toda vez que estou assim
nesta marasmo profundo
acabo dando rasteira
e inverto o meu próprio mundo.

Fico com cara de boba um tempo
observando a palhaçada
arquitetando o momento
da mudança de estrada.

E num piscar de olho rápido
saco da minha auto-estima
jogo fora, piso, mordo
e dou a volta por cima!

Silsaboia

****

PARE!

Silsaboia

Pare o carro!
Eu disse!
Pare!
Sou eu ali na esquina...
era eu sim... aquela menina...
Volte!
A mesma saia e bicicleta!
o mesmo jeito... alma inquieta...
olhos de asas de sonhar...
Pare agora... quero voltar!
Aonde ela foi? Em que rua está?
Quero encontrá-la...
Queria tanto perguntar...
Em que momento exato
a hora, o dia em que
ela perdeu aquele olhar?

Silsaboia

****

TEMPO

Silsaboia

Não faz assim...
Não me faz tanto medo
ao escorrer pelos meus dedos
zombando de mim...

Que eu tenho verde nos meus olhos
sementes nos cabelos
e terra fresca nos meus sonhos
pra plantar no teu jardim!

Silsaboia











Da minha janela

odeteronchibaltazar

Da minha janela avisto
a tua ausência
que se instalou
de fini tiva mente
no meu horizonte
e agora faz parte
dos meus dias,
e como visgo
cresce em meus versos,
em minha agonia.
Da minha janela avisto
a espera,
o não-dito,
o que sempre quis ser.
E sem ti,
mesmo assim,
por teimosia,
insisto em viver.

odeteronchibaltazar

domingo, novembro 06, 2005












Aquarela

odeteronchibaltazar

Dia branco
nebuloso
ensopado de névoas e segredos.

Casas quietas
caladas

disfarçando sonhos,
escondendo medos

terça-feira, novembro 01, 2005
















Ghost writer *

odeteronchibaltazar


Quando estava no Colégio Normal, lá pelos idos anos 70, eu me sobressaía na sala de aula por ser estudiosa e tirar notas excelentes. Era uma CDF assumida e era procurada pelas colegas para ajudá-las nas tarefas, trabalhos ou provas.
Tinha uma colega, vizinha de carteira, a Dora, que tirava o máximo de proveito da minha boa vontade: colava nas provas, estava sempre na minha equipe e pegava minhas tarefas todos os dias para copiar. Nem se dava ao trabalho de disfarçar sua preguiça de estudar.
Dora tinha um namorado que já estava na Capital fazendo o curso de Direito. Ele era uns cinco ou seis anos mais velho que ela, que tinha dezessete, assim como eu.
Eles se correspondiam como apaixonados que eram e um dia ela me mostrou uma das cartas e a resposta que estava escrevendo, pedindo-me auxílio para a elaboração da carta. A desculpa era que não escrevia muito bem, enquanto ele era excelente na escrita.
Ajudei-a com muito gosto. Fiquei até envaidecida em ser considerada uma boa "escritora" de cartas.
Na semana seguinte, Dora me traz outra carta do namorado e me confidencia que está sem assunto para escrever a carta em resposta. Pede-me para ler o que o namorado escreveu e dar uma idéia do que ela deve responder.
Lá fui eu, de novo, escrever a carta para o namorado dela.
Escrevi como se o namorado fosse meu e eu a namorada amada, esperando pelo amado, longe, na capital. Era um amor só! Empolguei-me, senti-me a própria namorada, e escrevi muitas páginas em papel de carta de seda. Ficou uma carta longa, amorosa, cheia de saudade e de carinho.
Dora adorou e o namorado dela, amou!
Na outra semana, Dora recebeu outra carta e me mostrou toda entusiasmada. O namorado tinha estranhado a maneira dela escrever e ficara se perguntando de onde ela tirara tanto assunto na carta anterior, mas estava feliz por vê-la tão alegre e romântica.
Dora, já sem nenhum pudor, pede-me que responda a carta no lugar dela. E começa ali, um período curioso da minha vida em que fui a namorada apaixonada sem nunca ter sido. Eu escrevia com prazer e já estava gostando daquela fantasia. Escrevia longas cartas que Dora, muitas vezes, dividia em duas para dar mais assunto ao namorado.
Sentia-me poderosa, tendo as palavras como varinha mágica que fazia aquele amor florescer. O amor era de Dora ou era meu?
Minhas eram as fantasias. De Dora, o namorado, com o qual se casou depois da formatura do curso normal. E eu? Nem fui convidada para o casamento...
Nunca ele soube da escrevinhadora das suas cartas. Não sei se desconfiou de algo. Nunca eu soube. Nem sei se estão felizes. Devem estar. Espero que estejam. Eu estou feliz e de consciência tranqüila. Sei que sou uma criadora de ilusões.

odeteronchibaltazar

*O ghost writer, é uma espécie de revisor e re-escritor das coisas alheias. Forneça-lhe informações básicas e algumas pistas de como desejas o teu texto e ele o entrega pronto. Seja este texto um discurso, uma dissertação, um panfleto publicitário, ou qualquer outro.

segunda-feira, outubro 31, 2005

Crônica

Nona Corina

odeteronchibaltazar


Nona Corina tinha "problemas" nas duas pernas. Diziam que ela tinha ossos de vidro, pois se partiam à toa. Usava uma cadeira de palha para se apoiar e se locomover pela casa a passos de tartaruga. Ela era a segunda esposa do meu bisavô materno, Estéfano, e morava com o primogênito deste, o Nono Beppi.
Apesar de suas limitações, Nona Corina trabalhava o dia inteiro na cozinha, enquanto todos iam para a roça ou trabalhar no armazém. Cozinhava sentada na boca do fogão, lavava louças apoiada à pia, fazia crochê e os remendos das roupas que usavam na lida do campo, sentada em um banco ao lado da sua cama. E ainda fazia coroas. Coroas para os mortos.
Eu me encantava com a rapidez com que ela criava as rosinhas de papel crepon e ia colocando no arco de arame.
Eram tantas as cores! Brancas e azuis para os pequeninos e as virgens. Lilazes para os adultos. A purpurina colocada nas beiradas das flores deixavam meus olhos cintilantes.
Em vésperas de finados, o quarto dela virava atelier e aquilo tudo era uma festa para a netarada (na verdade, bisnetarada).
Eu tinha uns cinco anos e gostava de ficar com ela enquanto minha mãe tinha algum compromisso fora de casa. E eu tinha minhas razões.
Além de poder ficar na cama (altíssima) com ela, eu ainda podia ter uma chupeta, que era proibida pelos meus pais, mas que a nona Corina me dava na maior sem-cerimônia. Eu ficava horas, ao lado dela em silêncio enquanto ela rezava, sentada no seu banco ao lado da janela, de onde avistava a rua quieta.
Eu ficava imaginando que ela rezava para os mortos de todas aquelas coroas que fazia a cada ano. E eram muitos! Enquanto isso, eu cochilava, embalada pelos murmúrios da oração.
Sua intimidade com a morte era tanta que mandou construir o seu túmulo no cemitério da cidade. Essa coisa toda era bizarra demais para nós. Para ela, uma simples precaução.
Ela demorou a usar seu lugar no cemitério. Partiu em dia de temporal e muita chuva. Eu já era moça e estava longe, na capital, fazendo faculdade.
Lamentei, mas não tive lágrimas para a Nona Corina. Apenas orações, como ela fazia para seus mortos.
Ela devia estar feliz, andando com suas pernas sadias e fazendo flores, muitas flores de papel crepon.

odeteronchibaltazar

domingo, outubro 30, 2005

de saudades











de saudades

odeteronchibaltazar

A saudade teceu um manto
sobre minhas palavras
que estão,
agora,
frias e caladas.

Já não adianta
as teias e seus cristais luzirem nas manhãs
pois meus olhos adormecerão
como sensitivas ao toque.
E as vozes dos riachos
entoarão,
à toa,
as cantigas.
E as folhas mortas
esquecerão de dar cores ao outono
ou de abafar o som dos meus passos fugidios.
Já não adianta o amanhecer com suas promessas
pois que a saudade se instalou
definitivamente em meus dias.

odeteronchibaltazar

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saudades

odeteronchibaltazar

E hoje teve a saudade,
triste verdade,
dos versos teus,
dispersos carinhos,
neste meu solitário céu.
E hoje teve a lágrima,
teimosa prova
da falta que me faz
um pouquinho
do riso teu.
E hoje teve a música,
senha nua,
anunciando marota,
teus esperados passos.
Hoje, que triste,
só não teve teu braço,
doce refúgio,
que me esconderia o cansaço,
me fazendo só tua.

odeteronchibaltazar

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de saudades, sempre...

odeteronchibaltazar

Hoje,
me perfumei com saudades,
olhando teu retrato amassado,
lembrança há tempos escorrida,
neste meu mundo quebrado.
Nas sobras do choro,
costuro a vida,
e me escondo da tua ausência doída.
Nas dobras do olho,
já não consigo
desfazer o nó que,
há muito tempo,
eu fiz,
nestas minhas duras esquinas.

odeteronchibaltazar

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Saudade

odeteronchibaltazar

Sei que a saudade vai machucar,
mas saudade
é um presente maroto,
presente de grego,
que sempre me dás,
com tuas flores,
tuas dores,
tuas rimas
e teus muitos amores.
Tão bons momentos,
não poderão ficar
no esquecimento
nestas voltas
que a vida dá.
Guarda-me um pouquinho
em seu coração,
pois sou pequenina,
menina faceira,
tão cheia de manha,
e caibo todinha,
inteirinha em tua mão...

odeteronchibaltazar

quinta-feira, outubro 27, 2005

de segredos











Guardador de meus amores

odeteronchibaltazar

Te contei os meus segredos,
imaginando
te fazer
cúmplice dos meus medos,
te tornar
confessor dos meus pecados
e esperar,
contrita, o perdão.
Fazer terapia descompromissada,
sem horário ou remuneração.
Aluguei teus olhos e ouvidos,
ocupei teu espaço e tuas horas,
pensando estar
incluídos, no contrato,
teus sentimentos
e também teu coração.

odeteronchibaltazar

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Segredos

odeteronchibaltazar

Conta-me das tuas andanças
e das tuas fogueiras que,
em noites insones,
consumiram sonhos e
iluminaram pesadelos.
Fala-me das tuas nuvens
em tempos de chuvas e temporais.
Conta-me dos teus dias,
alegres ou tristes,
diferentes ou iguais.
Canta-me as tuas canções
que entoavas em silêncio
com medo de acordar.
Conta-me de teus suspiros
e de teus soluços
e de teu chorar.
Sussurra-me os nomes
que não queres mais gritar .
Desenha-me os sonhos e as danças
que tens escondidos em tuas mãos.
Alcança-me teus braços e,
depois,
fica para sempre,
quieto,
em paz,
em meu regaço.
Não serás mais triste,
eu te prometo!
Nunca mais.

odeteronchibaltazar

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Secrets

odeteronchibaltazar

As feridas
abertas na tua partida
o benfazejo tempo as fechou.

As lembranças,
guardo-as entre meus lenços
misturadas ao cheiro
das tuas palavras
e cada cor da tua voz.

E embora eu
viva cada música
que escutei contigo em surdina
mantenho-as em mim
silenciosas.

E se irão comigo
assim como tua memória.

Somente o vento contará
em segredos
aos enamorados do parque
as juras que fizemos
há tanto tempo atrás.

odeteronchibaltazar

quarta-feira, outubro 26, 2005

Crônicas















O anel

odeteronchibaltazar

Aos meus sete anos, comecei a ir para a Catequese para aprender a doutrina da religião católica, como faziam todas as crianças da minha idade, no meu bairro.
A doutrina era aos sábados, à tarde, na igreja e era dada por catequistas , que eram mocinhas da comunidade.
Sentávamos nos bancos da igreja, e eu ficava distraída, olhando os afrescos bem pintados da igreja. Eram muitos e todos contando alguma história da Bíblia: o dilúvio e Noé, com os animais todos enfileirados; a sarça ardente com o "fulano" espantado na frente (agora esqueci o nome, e na época eu nem sabia também...); a criação do homem num jardim maravilhoso...hã?
- Hã? hum...o quê?
Era eu, toda atrapalhada, tentando voltar à realidade e tentando responder à catequista:
- O pai é Deus? -- perguntava ela a todos (ainda bem).
E todos gritavam bem alto a resposta, fazendo ecoar na igreja, que me parecia enorme pra minha meninice:
- Sim, o Pai é Deeeeeeus...
- O Filho é Deus? a catequista prosseguia.
E nós, tentando parecer muito entusiasmados:
- Siiiiimmmm! O Filho é Deeeeeeus!
E lá vinha mais uma pergunta misteriosa:
- O Espírito Santo é Deus? a esta altura, eu já estava confusa, mas respondia prontamente, tudo decorado, na ponta da língua:
- Siiiimmm! O Espírito Santo é Deeeeus!
Até hoje, lembro destas perguntas, e as faço ainda...
Mas, deixa estar que nesse dia , eu havia passado no bar, em frente à igreja, onde comprávamos as guloseimas todas e tinha comprado as balas antes da Doutrina, ao invés de comprá-las na volta. Sempre tínhamos uns trocados para as balas e picolés, mas sempre deveriam ser comprados na volta.
Eu havia comprado umas balas que vinham em caixinhas fechadas com brindezinhos de plásticos e que exerciam uma tremenda fascinação em mim. Naquele dia veio um anel de metal dourado com pedrinha de plástico colorido.
Chupei a bala (deliciosa), coloquei o anelzinho no dedo e durante toda a doutrina fiquei a botar e tirar o anel do dedo. Chegou até a cair a tal da pedrinha colorida.
Então, coloquei o anel na boca e comecei a mastigar o metal. Mastiga cá, amassa lá, morde acolá, e ops!
glup...hgun... ENGOLI!
- Engoli o anel! -- falei pra catequista, atenta aos catequizandos.
E desandei num choro convulso, apavorada, fazendo a catequista ficar endoidecida atrás de água (para me fazer engolir melhor o anel, eu pensei na hora).
Muitas águas e lágrimas depois, voltamos à doutrina , mas todos olhavam para mim como se eu fosse uma misteriosa engolidora de anéis...
Pior foi chegar em casa, com minha irmã mais nova fofoqueira, alardeando pra quem quisesse ouvir:
- Mãe, a Dete engoliu um anel!
E a minha mãe depois de ouvir toda a história, fala muito faceira e calma:
- Ainda bem que a Dete mastigou bem o anel, antes de engolir.

odeteronchibaltazar


********************



CENA RURAL

odeteronchibaltazar


Eu não entendo nada de bois, embora tenha sido criada no meio deles. Meus avós tinham para o gasto da casa, quero dizer, tinham vacas com leite e gado para corte (ui, que medo!).
Vivia brincando nos pastos com bosta, sabe aquelas? Aliás, meus pais se conheceram em uma guerra de bostas. E é uma história muito romântica esta que vou contar-lhes.
Minha mãe tinha ido visitar uns parentes, no Caravaggio (município de Nova Veneza, Santa Catarina), bairro vizinho do Rio Maina, onde ela morava.
Lá pelas tantas da tarde, minha mãe e as primas foram chupar laranjas, mais precisamente vergamotas. Naquela região, tem-se o costume de separar terras com árvores frutíferas; na maioria das vezes, com pés de vergamotas, que têm espinhos para evitar a saída do gado e, ainda assim, os frutos são aproveitados.
Pois bem, estavam chupando as tais vergamotas e ouviram uma conversa do outro lado das vergamoteiras, que eram as terras do João Ronchi (meu avô paterno). Ficaram curiosas e, em silêncio, tentaram escutar algo, mas o que ouviram foi um splashhhh! do lado delas. Era uma enorme bosta de vaca, daquelas moles e bem frescas, que caiu bem perto da minha mãe. Ainda meio surpresas com a petulância daqueles "bugres", não perderam tempo: minha mãe foi à cata de munição e as primas ajudaram-na a iniciar a batalha.
Era um tal de voar bosta para todos os lado, e minha mãe ficava doidinha, evitando se sujar. Um tanto impossível, já que a melhor munição era exatamente aquela mais mole...
Cessada a guerra, com sujos e embostados de ambos os lados, risadas correndo soltas, as duas facções se encontraram e buon giorno daqui, buon giorno de lá. Meus futuros pais ficaram se olhando nos olhos claros e, lá mesmo, no romântico cenário rural, marcaram de se encontrar na domingueira. Ali, naquela guerra de bosta, eu já era um projeto divino...

odeteronchibaltazar

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Tempos da nona

odeteronchibaltazar


Quando criança, lembro tão bem, íamos na casa da nona, depois da janta. Ficávamos todos na grande cozinha a conversar.
Minha mãe falava com meu avô em italiano, e eu me punha, atenta, a escutar, mas nada entendia. Fingia que entendia , mas o bordado não saía do pano. Me contentava com o som gostoso das vozes, como se fossem segredos contados ao pé do ouvido. Ficava meio grogue, me deixando levar pelo som letárgico das falas em dialeto, e aquela cantilena me dava um sono...e de mais nada eu tinha medo.
Queria que o tempo parasse para ficar ali, assim, sentada ao pé dos adultos, no chão vermelho e bem encerado da cozinha. Queria ficar ali, assim, esperando o café com leite e o pão da nona que sempre enchia a mesa farta, a polenta fria, que sempre sobrava do almoço, o queijo "guitchi-guitchi", (um queijinho bem magro que fazia esse som ao apertá-lo, feito pela nona Corina, que na verdade era minha bisnona), o salame, a mortadela...Tudo feito em casa. Dá água na boca só de lembrar!
Quando já os olhos queriam colar, voltávamos para casa, a pé, pelas ruas escuras. Naquela época não tinha iluminação nas ruas do Rio Maina. Minha irmã mais nova ia no colo. Nesse tempo o meu irmão caçula, o Bertino, não era nascido.
Então, nessa hora, eu tinha medo. Muito medo. Agarrava a calça do meu pai e, de olhos bem fechados, pé ante pé, só os abria em casa, tendo até a alma suada.
Lembro da sensação de colocar o pé no escuro sem saber onde o estaria colocando. Lembro do barulho dos nossos passos no silêncio da noite. Lembro do carinho quente da cama, depois desta caminhada. Lembro...
Feliz lembrança, de um tempo gostoso. Tempo tão fugidio! Lembranças tão boas, de deixar a alma lavada.


odeteronchibaltazar
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