sexta-feira, maio 15, 2009

Um conto



















Quase-perfeito

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Não fosse aquela dorzinha insistente na cabeça, estaria tudo perfeito. Luzes acesas, tvs ligadas, todas no mesmo canal, ventiladores girando no teto, ar condicionado ligado no máximo. Tudo fresquinho, quase gelado, agradável na semi-obscuridade solitária da casa. Um sossego..
Sentou no sofá depois do banho tomado, com um prato de frutas: uvas crocantes, deliciosas, geladinhas. Gostava de sentir o bago estourar entre seus dentes e o sumo escorrer goela abaixo. Precisava estar assim, com os bagos bem firmes para ser bom e sentir o croc gostoso na boca. Não fosse a fisgadinha na cabeça, tudo estaria mais que perfeito. Quão pouco precisava para ser feliz! A solidão, a temperatura geladinha e as uvas.
Sozinha, sem compromissos, sem esperas, sem horários, sem cobranças, cabelos molhados e despenteados, camisolão velho e furado em vários lugares por cima do corpo nu, pés em cima da mesa de centro. Como era bom estar só!
Perfeito! Não fosse a dorzinha insistente que nem mesmo o analgésico conseguira anular, ali, naquele momento, seria o céu.
Nenhum barulho lá fora, nenhum carro, ninguém para esperar. Solidão desejada. Solidão amada.
Continuou a comer as uvas e a sentir o estalar crocante e molhado na boca. Olhava a tv, sem prestar atenção. O suco ainda escorria por seus lábios quando caiu inerte, de bruços, no chão sobre as uvas, quebrando o prato.
A dor de cabeça passara, pensou...ah, agora sim, estava no céu.
No dia seguinte, o caseiro da fazenda encontrou-a deitada no chão entre cacos e uvas, mortinha da silva, como explicou ao delegado. A porta estava aberta e tudo assim, ligado e aceso. Pensei que não tinha ninguém e vim apagar as luzes, seu moço, como sempre fazia, explicou depressa.
Ela estava com um sorriso tranqüilo, como se estivesse tudo em ordem. Tudo estaria perfeito, não fossem aquelas moscas voejando ao redor da sua boca...


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terça-feira, maio 12, 2009

Tarja preta















Tarja preta

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Eu vi a criança suja na rua
recolhendo migalhas.
Eu vi o bêbado na luz da lua,
caído e sem mortalha.
Eu vi a mãe aidética,
quase nua,
dormindo por sobre o frio asfalto.
Eu vi o garoto com fome,
cheirando cola sob a luz do sol.
Eu vi o velho desdentado na rua
pedindo compaixão.
Eu vi garotos comandando assalto.
Eu vi meninas tão pequenas,
catando comida no lixão.
Eu vi!
Eu vi tudo
mas fiz que não vi, não.

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Pêndulo




Pêndulo

Pra-cá-pra-lá-pra-lá-pra-cá
Deixa estar
que o tempo
não parará.
E eu?
Tonta
não sei o que vim buscar.

segunda-feira, maio 11, 2009

Recadinhos by odete

















Recadinhos by odete

Se você me ouvisse,
não estaria assim
macambúzio,
comendo diets,
chutando o pau da barraca.
Se você me ouvisse,
(de)certo
estaria
pescando poesia,
velejando rimas
com all reserved rights.

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segunda-feira, maio 04, 2009

Espelho das águas















ESPELHO DAS ÁGUAS

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Assusto-me
com os tantos caminhos
que a vida delineou em minha boca,
em meus olhos,
em meus dias.
Não me dei conta dos traçados
inúteis
que deixei vingar.
Nem me preocupei
em construir pontes,
demarcar fontes
onde, mais tarde,
eu pudesse me refrescar.

Agora,
miro este corpo marcado,
este chão quebrado e
corro feito louca
contra o tempo.
Mas ficou tarde para retomar verdades.
Inútil querer voltar ao passado.

Imagem by Martha Moura

quarta-feira, abril 29, 2009

Letras & tintas















Letras & tintas

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Fico em lenta agonia
esperando tuas letras,
escritas uma a uma em minha pele,
com teus dedos em poesia...
Espero tuas tintas
que haverão de tingir,
em minhas faces,
o vermelho-rubro
de uma paixão sem fim.
E te digo, enquanto pintas:
"Não há no mundo,
um amor tão perfeito assim!"

sábado, abril 25, 2009

Presente de uma tarde de outono


















Presente de uma tarde de outono

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Teu poema pousou suavemente em minha tarde
e eu o escondi entre os meus sonhos...
Tive medo
que voasse para longe.
Tive medo que fizesse alarde
e fugisse enquanto eu dormia.
Tive medo
que as folhas de outono
o escondessem
na fria tela do meu dia.

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quinta-feira, abril 23, 2009

À noite... só...













À noite... só...

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Falo para a noite que chega
e não encontro consolo.
Digo que não mais esperarei
mas aqui estou,
outra vez,
colando pedaços
que espalhei pelas tardes
à espera de teus beijos.
Falo somente para a noite
pois ninguém mais entenderia
esta espera
feita de cores e fitas.
Só a noite
me propicia
esconderijos nas esquinas.
Só a noite
mantém este segredo
que já nem sei guardar.
Só a noite me diz:
"Espere. Ele há de chegar!"

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quarta-feira, abril 15, 2009

Borboleta




















Borboleta

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Procuro,
nas cores,
a borboleta,
- aquela -
que se deixa pousar em
minha mão.
Fica lá,
imóvel,
feito meu anel...
Lambe meus dedos,
rouba-me as flores
e deixa brilhos esvoaçantes,
deixa gotas de chuva,
sobram pingos de mel.
Nas minhas mãos
em oração
suspendo asas de cristal.
Efemeridades,
sopro divino,
frágeis leques,
pousados entre o Bem e o Mal.

odeteronchibaltazar

Foto digital by odete

quarta-feira, abril 08, 2009

Shhhhhh!



















Shhhhhh!

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Silêncio!
Quero ouvir os passos
do meu amor que está voltando.
Ele chegará tão quieto e silenciosamente,
que pode passar despercebido...
Sei que ficará comigo...
... Mas não sei até quando...
Também sei que ficarei em nuvens.
Por favor, não me acordem,
pois sei que estarei sonhando...
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